Em modo automático

No começo foi inevitável. Cordialidade necessária para um ambiente desconhecido. Ainda assim, os poucos lapsos de controle manual foram o suficiente para conscientizar-me de que a única solução era o auto-controle. Pouco a pouco fui me transformando. Nos meios eletrônicos, consegui de forma mais fácil, era propício para essa camuflagem. Rapidamente, me despindo de uma carcaça humana e frágil, para aquilo que era suficientemente esperado. O revestimento do que seria minha armadura para proteção do sofrimento...foi mais difícil de vestir. No conturbado período de adaptação, a armadura era um mal menor. Com o tempo, percebi a importância de manter a carapaça, e o quanto deixava as pessoas com quem me importava felizes. Infelizmente, a matéria ainda era superficial, e o mais pequeno golpe, multilava a armadura inteira, revelando aos mais próximos o quanto era ilusório meu amadurecimento. O vexatório destes momentos, criaram a máscara perfeita para que eu mesma acreditasse em um amadurecimento real, capaz de concluir a criação do mais completo modo automático.  De alguma forma, a parte externa do meu corpo, está insuscetível a maiores formas emotivas, de demonstração de sentimentos, de empatia, de proximidade mais humana. A programação permite apenas um nível aceitável de sentimentalismo para que não haja julgamentos entre as mais próximas relações. Assim como, está permitido demonstrações de afetos em aniversários, datas comemorativas e convenções. Outro efeito colateral foi uma transferência dos sentimentos que antes era mais íntimo para coisas mais longínquas e até fictícias, como noticiários, filmes e séries. De qualquer modo, a manisfestação contra ou a favor disto é realizada de forma programada e conveniente. Quando sou convidada para qualquer evento em que pode haver a mínima probabilidade de ter que externar emoções acima do valor estimado como necessário, a resolução é simples: não comparecer. No entanto, com uma desculpa plausível para não parecer insensibilidade. O processo estaria quase em fase de desenvolvimento, se não fosse o fato de eu sentir saudades de voltar a ter relações humanas, de cometer erros por conta de emoções desmedidas. Por sorte, a programação está avançada o suficiente para não ser reversível.  Quando surge o sentimento interno, ele é tão interno, que a única manifestação externa é o silêncio. Estou convencida de que tenho que seguir o processo de automação adiante. Mas são necessários muitos ajustes. O primeiro é fortalecer a carapaça, para que os sentimentos interno não chegue a superfície. O segundo menos complicado é inserir mais scripts humanóides para as interações sociais. O terceiro é planejar o tempo de forma mais integral. O quarto ajuste é exterminar as visitas ao passado sombrio. O último ajuste é aperfeiçoar o sentimento de ser mãe e constituir família. Feito isto, finalmente terei terminado à árdua missão de programação para uma vida de adulta.

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