Aborto
Estou finalmente enlouquecendo de vez. O tempo está estranho. Ontem eu tava velha, hoje tenho dois anos. Desde que aquele relógio ativou aquela mola propulsora que andou para trás bem devagar e acelerou com toda força pra frente, vejo apenas espirais rodando feito tortas gigantes que fazem aumentar meu coração e minha barriga. Estou tão descontente. Só não posso dizer que é o máximo que já senti em toda a vida, porque tem um ser existente novo que faz eu escrever florzinhas e corações. Mas essa minha imperfeição estampada na camisa pendurada no lugar certo do quarto dele faz eu desejar que nada disso seja tão real. Voltando então a loucura que inspirou eu retomar este blog empoeirado, quero compartilhar os mal-feitos realizados nos últimos dias, nem mesmo uma criança que ganhou dinheiro conseguiria desperdiçar e tornar-se tão dependente quando minhas burradas diárias. Eu estou com uma carga de dinamite pronta para explodir, tenho capacidade de desativar, mas tudo que eu faço é dormir e esperar que exploda logo e acabe essa agonia. Temos que sofrer tanto nessa vida. Nem estou tão perto do sofrimento de qualquer adulto que submete-se às convenções sociais. Falando nelas, fui mal ontem de novo. Nunca acerto nessa arte de ser legal com pessoas que estão na sala de jantar preocupadas em nascer e morrer. E o tempo passando, agonia do tic tac da bomba relógio. E o tempo embaralhado, as pessoas incompetente me inspirando. Não sei se é falta de trabalho, falta de dinheiro, falta de amigos, falta de conhecimentos, falta de experiencia, falta de atitude, falta de vontade, ou uma porção de cada coisa. Mas a vida está esvaziando, e em vez de eu crescer estou diminuindo. Tão pequena que quase caibo naquela garrafa que jogaram para pedir ajuda por estar naufragando mais um navio errante. Se eu pudesse ao menos utilizar meu cérebro embaralhado para escrever uma tese dessas incompreensíveis que todo mundo acha sensacional e acabar meu martírio. Poderia então finalmente despender todo dinheiro necessário para acabar com minha vida de vez. Minha programação foi quase completa. Exceto pelas urgências que precisava fazer. A pior parte é que priorizei tudo aquilo econômico suficiente para me sentir uma selvagem capitalista alegre pelo certame da lógica de que é isso que compraria minha felicidade. A melhor parte é que estou envolta de valores imateriais suficientes para me provar ao contrário e que isto me deixaria a criatura mais infeliz a cá estou. E se este vai e vem de ideias tortas não deixou você tonto, vou ter que parar para vomitar mais umas cem letrinhas latejantes no meu estômago maldito.
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